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Observatório no Sul de Minas mantém pesquisas sobre estrelas, exoplanetas e objetos do Sistema Solar

Publicado em 17/08/2026 por 
Redação: Jovem Pan Itajubá / Jovem FM Cambuquira

Enquanto grande parte da população dorme, pesquisadores e técnicos trabalham no alto da Serra da Mantiqueira, entre Brazópolis e Piranguçu, acompanhando fenômenos que ocorreram há milhares, milhões e até bilhões de anos. É nesse cenário que funciona o Observatório do Pico dos Dias (OPD), considerado o maior complexo astronômico em operação no Brasil.

Instalado a 1.864 metros de altitude, o observatório é utilizado para pesquisas sobre estrelas, galáxias, exoplanetas, asteroides e cometas. A estrutura também participa do monitoramento de objetos artificiais em órbita da Terra, como satélites desativados e fragmentos de lixo espacial.

A altitude é um dos principais fatores que favorecem as observações. O local sofre menor interferência de poeira, umidade, poluição luminosa e das camadas mais densas da atmosfera, condições que ajudam os telescópios a captar sinais mais precisos dos objetos celestes.

O acesso ao observatório é feito pelo bairro Bom Sucesso, em Brazópolis, por uma estrada de montanha que leva aproximadamente 25 a 35 minutos até o topo da Serra da Mantiqueira. No inverno, as condições de trabalho podem ser rigorosas, com temperaturas próximas de 2°C durante a madrugada e sensação térmica que pode chegar a -1°C.

Telescópios transformam luz em dados

O principal equipamento do complexo é o telescópio Perkin-Elmer, com espelho de 1,6 metro de diâmetro. Segundo o material do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), responsável pela operação do observatório, ele é o maior telescópio óptico em funcionamento no país.

O OPD também possui os telescópios Boller & Chivens, Zeiss e ROBO43. O Zeiss tem uma particularidade histórica: adquirido da antiga Alemanha Oriental na década de 1970, teve parte do pagamento realizada com café brasileiro.

A rotina de observação começa antes do anoitecer, com calibração dos equipamentos, verificação das condições meteorológicas e preparação dos telescópios. O trabalho científico, no entanto, vai muito além de observar o céu. Os equipamentos captam a luz dos objetos celestes, que posteriormente é transformada em dados para análise dos pesquisadores.

A cada semestre, entre 20 e 25 projetos científicos utilizam os equipamentos do observatório, reunindo pesquisadores de universidades e instituições brasileiras e colaboradores internacionais.

Pesquisa de exoplanetas e lixo espacial

Entre os objetos estudados estão os exoplanetas, planetas que orbitam estrelas diferentes do Sol. Como esses corpos estão muito distantes e normalmente são ofuscados pelo brilho de suas estrelas, os pesquisadores utilizam métodos indiretos para identificá-los.

Um deles é o chamado trânsito planetário. Quando um planeta passa diante de sua estrela, provoca uma pequena redução no brilho observado. A análise dessas variações permite identificar e estudar esses corpos mesmo sem que eles possam ser vistos diretamente.

O observatório também participa do acompanhamento de objetos artificiais que permanecem em órbita, incluindo satélites desativados e fragmentos de equipamentos espaciais.

Participação em descobertas sobre anéis de pequenos corpos

Uma das pesquisas de destaque associadas ao OPD envolveu Chariklo, pequeno corpo localizado entre as órbitas de Saturno e Urano.

Em 2013, observações realizadas durante a passagem de Chariklo diante de uma estrela revelaram alterações na luz que indicavam a presença de estruturas ao redor do objeto. O observatório participou da caracterização da estrela ocultada e contribuiu para a análise que confirmou a existência de anéis em Chariklo.

Anos depois, o complexo também teve participação na confirmação dos anéis de Quíron. As observações feitas no Sul de Minas contribuíram para a identificação de três anéis e de um disco de material ao redor do corpo celeste.

Atualmente, pelo menos quatro pequenos corpos do Sistema Solar são conhecidos por possuir sistemas de anéis.

Mais de quatro décadas de produção científica

A trajetória do Observatório do Pico dos Dias também pode ser medida pela produção científica. Ao longo de sua história, os dados obtidos no complexo resultaram em 605 artigos publicados em periódicos científicos revisados por pares.

A estrutura também contribuiu para a formação de 110 doutores e 140 mestres. Cerca de 40 profissionais trabalham no local, entre pesquisadores, técnicos, operadores e equipes de apoio.

A cada semestre, são realizadas entre 140 e 150 noites de observação, com aproveitamento que varia de 60% a 80%, dependendo das condições climáticas e técnicas. Durante as madrugadas, aproximadamente cinco profissionais permanecem responsáveis pelo funcionamento dos equipamentos e pelo acompanhamento das observações.

Clima e isolamento são desafios

Manter uma estrutura científica em uma área de montanha exige uma operação permanente. Energia, água, internet, suprimentos e manutenção precisam ser administrados em uma região de acesso restrito.

O clima também interfere diretamente na atividade. Chuva, nuvens e umidade elevada podem impedir as observações e obrigar o fechamento das cúpulas dos telescópios.

Apesar das dificuldades, o complexo passa por uma fase de modernização. O LNA prevê a instalação de novos telescópios, ampliação das observações remotas e adoção de sistemas mais automatizados. Dos cinco novos equipamentos previstos, três já haviam sido adquiridos.

No alto da Mantiqueira, o observatório mantém uma estrutura dedicada a transformar sinais extremamente distantes em dados científicos. O trabalho realizado em Brazópolis conecta o Sul de Minas a pesquisas sobre a origem, a evolução e a dinâmica do Universo.

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